12 maio 2008

Você

Você tem em mãos um velho álbum de fotografias, daqueles que ninguém mais se entusiasma em olhar. Pouco a pouco você distribui diferentes nós de emoção; a cada imagem de rosto ou lugar ou situação que norteia o seu olhar moribundo, você dá-se conta de uma porção de coisas que já não tem.
Cedo ou tarde, você será surpreendido por algum tipo de visita. Tarde, você recolherá os papéis amassados, arremessados. Cedo, você acordará para uma mesma realidade. Tateando em busca de seus óculos de grau, você enxergará com três outros sentidos; lambendo o próprio braço ossudo, você descobrirá que também é feito de gostos. Você não mais aceitará que o surpreendam sem sapatos. Amanhecerá e você ainda não pregou os olhos, não sentou no sofá novo, não deu de comer aos peixes, não cortou as unhas das mãos e nem pensou em terminar de ler aquele livro. Você nunca entende o porquê.
Acostumado, você passeia pelas mesmas galerias geladas e sem graça. Os cafés já não lhe dão o prazer de outrora e, há muito, você não sabe como é mexer nos cabelos de alguém. Essa desesperança não o faz sentir-se bem, mas pouco você se intromete para cambiar tal quadro, visto que tudo pode ser o que não é.
Não é cedo e no entanto, você ocupa-se mirando velhas fotos. Seus lábios colorem-se de vinho e você já não aguenta mais o peso da própria idade ali representado.

2 comentários:

Ricardo disse...

Isso que ela diz que não está numa fase muito inspiradora pra escrever...

Imagina se estivesse, senhorita. Imagina se estivesse.

Nana disse...

fiquei vazia.