na intensidade
na intensa
idade
na ida
de lá.
09 Julho 2009
Proximidades
O coração de alguém não pode ser medido apenas pelo punho fechado de uma de nossas mãos. Ele se estende para além. Experimentei apoiar delicadamente a minha mão direita no peito, lado esquerdo. Em muito tempo eu não o ouvia borbulhar lá dentro. Respirar já não tornarva-me suficientemente grande, e agora sei que para tudo aquilo que fez com que eu me guardasse em silêncio profundo, houve uma explicação. Hoje moldei em um retrato a matéria na qual sou feita. Meu coração bateu para fora de minhas roupas de inverno, e num compasso desregrado com a chuva apaziguante que ouço cair lá fora, fez-se um clarão límpido e silencioso em minha intensa peregrinação pelo maior. Encontrei aquilo que havia procurado. E foi em ti que pensei.
19 Junho 2009
Galáxias - Haroldo de Campos

e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do
comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomêço refina o refino do fum e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um
começo em eco no soco de um comêço em eco no oco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só
conheço o osso o osso buço do comêço a bossa do comêço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravilha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favilha de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala
15 Junho 2009
apenas sair daqui
ando saudosa. junto meus trapinhos e ruídos, deposito tudo em uma caixinha de música quebrada. minha bailarina está sem par, chorando pela condenação de dançar suavemente até surtir a pena de alguém. não sinto pena de mim mesma, mas acabo dançando para que a bailarina não se sinta sozinha. estou sozinha. dançarei eu tão suavemente a ponto que me fechem em minha caixinha?
14 Junho 2009
01 Junho 2009
De profundis
Estamos prostrados, inúteis, em frente à janela mais próxima. O tempo disparou feito fuga iminente. Assim, disparado, nos transpassa em vultos densos e agonia peculiar.
Não vemos agora um ao outro; um outro de nós mesmos avançou no lugar.
O silêncio atribui-se a nós em uma pálida melancolia. Silenciosos, somos severamente menos interessantes ao voltarmos para a casa onde os espaços perdem-se no meio de nossos momentos desperdiçados. Definhamos.
Calamos olhares que outrora misturaram-se ao desespero constrangedor de não poder gritar - no escuro - nossas falsas inquietações.
21 Maio 2009
(Quase amor)
Eu poderia ceder e te esperar todas as noites. Eu poderia dizer com menos palavras e mais presenças que te esperei por toda a noite. Meu amor, eu poderia amar-te e compreender-te à moda antiga, na sacada, enquanto servimos de banquete ao céu da madrugada. Eu poderia chorar os teus lamentos e varrer os meus lamentos pra debaixo dos teus momentos de não querer e, assim, sentir que sou em ti. Eu poderia descansar os meus cabelos molhados e a minha nuca cansada em teu peito, só pra ouvir o teu coração bater bater bater e acreditar, em profundo silêncio, que é por mim & a mim e dormir. De relance, eu poderia partir.
Mas já não cedo, não espero, não digo, não amo, não compreendo, não choro, não varro, não sinto, não descanso e não durmo. Parto.
Não tardo em deixar-me ir.
02 Maio 2009
Noite in vitro
Pela janela, observo
O senhor e seus dois companheiros
De caminhada notívaga
Arrastada nos chinelos velhos.
Também é velho
Ele, em cujas mãos pesam
Sacolas cheias de
Sonhos empoeirados; enquanto
O cachorro de lá
Balança o rabo, feliz
Levado pela inércia de
Não saber para onde está indo.
Jaz a noite, enfim,
De calmo frescor e poucos ruídos
Que não os desses passos
Tão explícitos.
30 Abril 2009
Que livro eu sou?

Teste encontrado no blog Trecos&Trapos da Dani (acessem! é ótimo) sobre "Qual livro você é"
Na falta de inspiração, eis que...
Resultado:
Na falta de inspiração, eis que...
Resultado:
"Antologia poética", de Carlos Drummond de Andrade
"O primeiro amor passou / O segundo amor passou / O terceiro amor passou / Mas o coração continua". Estes versos tocam você, pois você também observa a vida poeticamente. E não são só os sentimentos que te inspiram. Pequenas experiências do cotidiano – aquela moça que passa correndo com o buquê de flores, o vizinho que cantarola ao buscar o jornal na porta – emocionam você. Seu olhar é doce, mas também perspicaz.
"Antologia poética" (1962), de Drummond, um dos nossos grandes poetas, também reúne essas qualidades. Seus poemas são singelos e sagazes ao mesmo tempo, provando que não é preciso ser duro para entender as sutilezas do cotidiano...
.
Pois é.
24 Abril 2009
Diluir-se
Lembrou-se daquela antiga carta não enviada. Ainda estava dentro da caixinha de madeira sobre a prateleira do quarto. Abriu com cuidado, como se algo de muito delicado se alojasse ali; pegou o pedaço de papel rascunhado e fez menção de ler, mas não levou a ideia adiante. Não fará sentido, pensou. Havia decidido livrar-se do passado encaixotado quando entrou no banheiro e abriu a torneira, deixando a água escorrer vagarosamente por alguns segundos até que apoiou o papel ali e permitiu que se apagasse o que outrora havia lhe causado muita dor-dolorida e nada colorida. A mistura transformou-se em uma matéria úmida e quase nula e, por fim, esfregara as mãos para desintegrar o resto.
Ainda cedo, havia pensado em queimar a carta no latão de lixo, mas a verdade é que o cheiro faria durar o conteúdo por mais tempo. Havia apegado-se ao fim e não partilhava da ideia de unir o seu pesar à forma eterna de uma poesia: essa coisa tão infinita, pensou alto.
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