30 janeiro 2009

Intérprete

Já sentados dentro da sala de cinema, ele começa a analisá-la discretamente, de soslaio, como um predador que não entrega suas intenções abruptamente à vítima mais próxima.
Aparentemente imersa nos trailers intermináveis que passavam na grande tela, ela fingia não notar estar sendo dissecada visulamente por alguém da poltrona ao lado.
Sentada a sua esquerda, rapidamente ela ergue as pernas para cima, dobrando-as rente ao corpo, sandálias no chão e segurando firme os pés para esquentá-los; está agora em posição que indica um alguém fechado a qualquer possível artimanha de Marcos. Desligam as luzes.

O filme começa e ela se dá conta de que não estava mais tão interessada em fingir-se de desinteressada ou numa apatia inerente àquele tipo de comportamento que por vezes tentava emergir. Afinal, juntos formavam uma ótima dupla, apreciadores mútuos de suas próprias companhias, hedonistas inquestionáveis e amantes do silêncio acolhedor após uma derradeira risada.

No transcorrer dos diálogos daquela sala gelada e afundados naquelas poltronas estofadas, persistiam travessões inquietos em sua consciência feminina. Tantas vezes flagrou-se avaliando a situação na qual se encontrava de modo a abandonar prévios receios, tendo decidido sair da sessão com as pernas um pouco menos apertadas ao corpo - esse já acalorado - e na ânsia de tê-lo um pouco mais perto do que já o permitia, talvez conseguindo até ouvir a sua respiração intensa enquanto alguma mensagem de afeto entrava pelo ouvido direito, fazendo-a cerrar os olhos e palpitar mais forte o coração, sentindo-se um pouco tola, desajeitada, mas esboçando um frágil sorriso de escanteio enquanto sentia suas bochechas corarem tanto que poderiam deixar as luzes apagadas por mais uns instantes.

Um comentário:

Carolina. disse...

genial: "Afinal, juntos formavam uma ótima dupla, apreciadores mútuos de suas próprias companhias, hedonistas inquestionáveis e amantes do silêncio acolhedor após uma derradeira risada."

boa semana =*