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Ultimamente tenho passado alguns momentos observando-o, analisando meticulosamente sua personalidade. Parece-me que uma espécie de cortina nebulosa - outrora cintilante - desfez-se em fronte a meus olhos, dando lugar a uma fina névoa e a um descaso sorrateiro. Outra noite, durante a janta, sentei-me longe da mesa e fitei seus modos ao comer. A perna esquerda dobrada sobre a cadeira e aquele cabelo molhado penteado para trás esboçavam uma imagem e um corpo que há muito deixei de admirar com tesão. Apoiei os talheres, fingindo bebericar um gole de vinho e o flagrei arrecadando alguns míseros grãos de arroz que caíram do prato e levando-os até a boca com as mãos; aquele ar de dúvida sempre presente num olhar pela metade, a um passo de tornar-se obsoleto com suas ideias de transformação: sempre espreitava para engolir o início de alguma conversa alheia, mesmo sabendo que os de sua volta não o queriam mais ali.
Eu não estava naquela mesa durante o jantar, mas de alguma forma comecei a sentir-me da mesma maneira.
Eu não estava naquela mesa durante o jantar, mas de alguma forma comecei a sentir-me da mesma maneira.