24 abril 2009

Diluir-se

Lembrou-se daquela antiga carta não enviada. Ainda estava dentro da caixinha de madeira sobre a prateleira do quarto. Abriu com cuidado, como se algo de muito delicado se alojasse ali; pegou o pedaço de papel rascunhado e fez menção de ler, mas não levou a ideia adiante. Não fará sentido, pensou. Havia decidido livrar-se do passado encaixotado quando entrou no banheiro e abriu a torneira, deixando a água escorrer vagarosamente por alguns segundos até que apoiou o papel ali e permitiu que se apagasse o que outrora havia lhe causado muita dor-dolorida e nada colorida. A mistura transformou-se em uma matéria úmida e quase nula e, por fim, esfregara as mãos para desintegrar o resto.
Ainda cedo, havia pensado em queimar a carta no latão de lixo, mas a verdade é que o cheiro faria durar o conteúdo por mais tempo. Havia apegado-se ao fim e não partilhava da ideia de unir o seu pesar à forma eterna de uma poesia: essa coisa tão infinita, pensou alto.

3 comentários:

munny disse...

um mês depois e continua ótima. orgulho da família! :D

Nana disse...

mas que inteligente. dá pra passar óleo e borrar a tinta também, mas dai restaria o papel e as lembranças o.o

Carolina. disse...

ai, que lindo, que inteligente. amei esta ideia, aplica-la-ei! sim, tenho muitas coisas deste tipo guardadas. que bom que do pc basta dar um Shift + Del.
=*